sábado, 27 de outubro de 2012

A diferença entre abraçar e sentir

A primeira coisa que me vem a mente quando leio a palavra autismo é a falta que as mães devem sentir de abraçar seus filhos e logo lembro dos sorrisos e abraços que recebo do meu que mesmo com seus músculos rígidos se esforça para me dar um abraço e me fazer um carinho, que as vezes resulta em um belo tapa... Estudei um pouco sobre autismo, convivi um curto mais significante período com crianças autistas.

Tive a oportunidade de fazer um estágio de sete dias durante cinco horas por dia em uma instituição para autistas. Não vou medir palavras ainda que possa assustar alguns pais, mas fiquei abalada. Isso tem mais ou menos uns três anos e ainda lembro das crianças com as quais convivi naqueles dias. Era um menino e duas meninas. Apesar das semelhanças cada um tinha suas particularidades. Não sei porque penso tanto neles, talvez seja o fato de acreditar desde o primeiro dia que fiquei com as crianças, que alguma coisa ainda está errada no tratamento delas. Que o que faziam e me orientavam a fazer não deveria ser exatamente daquela forma...

Sou muito curiosa, quero aprender mais sobre o mundo e as pessoas a cada momento e busco formas variadas de aprendizado. Uma delas, em filmes, uma forma prazerosa de aprender. Hoje aprendi muito vendo o filme Temple Grandin que mostra a vida de uma pessoa brilhante. Me identifiquei demais com essa mulher e seu jeito de ver o mundo e por conta disso até acho que sou um pouco autista, pena não ser tão inteligente quanto ela rsrs.

Aprendi que os autistas não gostam de ser tocados e nem abraçados, mas Temple que não gostava de ser tocada desenvolveu uma máquina que simulava um abraço e assim conseguia se acalmar. Era a sua maneira de sentir e compreender o nosso comportamento tão estranho para ela que era vista como um ser de outro mundo por não se comportar como achamos "conveniente".

E aqueles que não se encaixam nesse modelo comportamental sofrem porque precisam se adequar para conviverem em sociedade, enquanto isso, aqueles que deveriam simplesmente mudar seu modo de enxergar as coisas ou acostumar-se a visualizar as diferenças como parte da vida, não movem um dedinho para que a permanência dessas pessoas nesse mundo seja menos dolorosa e elas possam usufruir dos seus "direitos humanos", que segundo a Convenção da ONU é "para todos". 

Como eu já suspeitava desde o princípio, autistas podem não gostar de abraçar, de tocar mas eles sentem e acredito que amam, a sua maneira, ainda que seja difícil não nos custa nada aprender a conviver e respeitar o seu jeito de ser, que é o que todos buscamos.

Temple, com seu jeito rude e até frio me fez lembrar de quantas pessoas já conheci que nos tocam profundamente, nos encantam com suas belas palavras, nos emocionam com sorrisos falsos e abraços apertados e por dentro são mais duras e frias que montanhas gigantes de gelo.  

E essa história verídica me leva a acreditar cada vez mais que o principal responsável pelo pleno desenvolvimento de uma pessoa com deficiência são aqueles que convivem com ela dia a dia. No início do filme vendo sua mãe insistindo para que a filha autista fosse para a escola e depois para a faculdade me fez pensar o que muitos pensam de mim: que mãe horrível, não está vendo as dificuldades da filha e fica insistindo para que tenha uma vida "normal"?. Uau! Também julgo as pessoas pelo que vejo... assim consigo até entender (não aceitar) porque julgam pelas aparências. 

Mas minha surpresa foi tamanha quando no final do filme compreendi que aquela mulher atingiu seu máximo por causa das ações (que julguei erradas no início) da mãe e de profissionais especiais que encontrou pela vida.

Francamente não é fácil acreditar que uma pessoa com limitações físicas, emocionais e intelectuais seja capaz de realizar grandes feitos. Mas eu cada vez mais tenho certeza de que ninguém pode limitar uma pessoa, independente de sua condição. Nenhum ser humano deve ser privado do conhecimento mas a todos deve ser oferecido a oportunidade de evolução, de desenvolvimento, mesmo sabendo que cada um de nós alcançará um objetivo diferente, sendo nem sempre o desejado.

Fácil expor o filho indefeso nesse mundo perverso? Não. Não  é mesmo, mas deixá-lo viver uma vida inteira em um mundo de fantasia, não lhe permitindo conhecer o mundo real e nem crescer, não faz de ninguém digno de viver mais um dia...

O poder de chegar lá nem sempre está onde esperamos, e muitas vezes perdemos oportunidades preciosas porque olhamos lá longe, enquanto tudo o que precisamos está bem perto de nós!!! 

E o filme?? Vale muito a pena assistir!    

Antônia Yamashita
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